IMPRENSA OFICIAL - OLÍMPIA
Publicado em 17 de julho de 2026 | Edição nº 2217 | Ano X
Entidade: Poder Executivo | Seção: Atos Oficiais | Subseção: Decretos
DECRETO N.º 10.088, DE 17 DE JULHO DE 2026
Dispõe sobre a denominação de praça pública que especifica.
EUGENIO JOSÉ ZULIANI, Prefeito Municipal da Estância Turística de Olímpia, Estado de São Paulo, no uso de suas atribuições legais, e
Considerando que, no período de 1º a 9 de agosto de 2026, a Estância Turística de Olímpia realizará a 62ª edição do Festival do Folclore de Olímpia – FEFOL, um dos mais importantes eventos de valorização e difusão da cultura popular brasileira;
Considerando que, no ano de 2026, completam-se 40 anos da realização do Festival do Folclore de Olímpia no Recinto de Exposições e Praça de Atividades Folclóricas e Turísticas “Professor José Sant’Anna”, espaço que se consolidou como referência nacional na preservação das tradições populares e que mantém estreita relação com a trajetória cultural de José Francisco Ferreira – “Capitão Ferreira”;
Considerando que a rotatória localizada na confluência das Avenidas Menina Moça, Mário Vieira Marcondes e Dr. Andrade e Silva constitui um dos principais acessos ao Recinto de Exposições e Praça de Atividades Folclóricas e Turísticas “Professor José Sant’Anna”, palco do Festival do Folclore de Olímpia, local intimamente relacionado à trajetória e ao legado cultural deixado por Capitão Ferreira,
Considerando que José Francisco Ferreira, carinhosamente conhecido como “Capitão Ferreira”, foi um dos mais importantes guardiões da cultura popular olimpiense e uma das principais referências na preservação das tradições de matriz afro-brasileira no interior paulista;
Considerando que, natural de Lagoa da Prata, Estado de Minas Gerais, trouxe para Olímpia os conhecimentos, a religiosidade e os saberes tradicionais herdados de sua família, dedicando sua vida à preservação e transmissão dessas manifestações culturais;
Considerando que foi fundador da Congada Chapéu de Fitas e da Companhia de Reis Estrela da Paz, grupos que se tornaram patrimônios vivos da cultura popular olimpiense e importantes referências do patrimônio cultural imaterial brasileiro;
Considerando que, a convite do Professor José Sant’Anna, em 1974, reorganizou em Olímpia a tradição congadeira trazida de Minas Gerais, fundando a Congada Chapéu de Fitas, que realizou sua primeira apresentação no Festival do Folclore de Olímpia e passou a integrar definitivamente a história cultural do Município;
Considerando que sua atuação foi decisiva para a consolidação do Festival do Folclore de Olímpia – FEFOL, contribuindo para a valorização, preservação e difusão das tradições populares, fortalecendo a identidade cultural olimpiense;
Considerando que durante décadas promoveu encontros de Congado e de Bandeiras de Santos Reis, reunindo grupos de Olímpia e da região, fortalecendo os vínculos comunitários e assegurando a continuidade dessas manifestações para as futuras gerações;
Considerando que seu legado permanece vivo por meio de seus familiares, discípulos e integrantes dos grupos culturais por ele fundados, constituindo exemplo de dedicação à cultura, à fé e à preservação da memória popular,
D E C R E T A:
Art. 1.º Fica denominada “PRAÇA JOSÉ FRANCISCO FERREIRA – CAPITÃO FERREIRA” a rotatória localizada na confluência das Avenidas Menina Moça, Mário Vieira Marcondes e Dr. Andrade e Silva, neste Município da Estância Turística de Olímpia.
Art. 2.º Ficam fazendo parte integrante deste Decreto, na forma de anexos, a Biografia do homenageado José Francisco Ferreira e a respectiva Certidão de Óbito, que fundamentam a presente homenagem e passam a integrar o acervo documental do ato administrativo.
Art. 3.º Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.
Registre e publique.
Prefeitura Municipal da Estância Turística de Olímpia, em 17 de julho de 2026.
EUGENIO JOSÉ ZULIANI
Prefeito Municipal
RAQUEL CRISTINA CREPALDI RIGHETTI
Secretária Municipal da Casa Civil
Registrado e publicado no setor competente da Prefeitura Municipal da Estância Turística de Olímpia, em 17 de julho de 2026.
CLÉBER LUÍS BRAGA
Diretor da Divisão de Normas e Atos Oficiais
Capitão Ferreira: quando a tradição encontrou solo fértil em Olímpia
1. Introdução
José Francisco Ferreira, conhecido com o nome popular de ‘Capitão Ferreira’ foi um dos mais importantes guardiões da cultura popular de Olímpia e uma das principais referências na preservação das tradições de matriz afro-brasileira no interior paulista. Natural de Lagoa da Prata, em Minas Gerais, filho de Francisco Cândido Ferreira e Deodata Maria de Jesus, migrou para Olímpia para trabalhar na lavoura, trazendo consigo os saberes, a religiosidade e as práticas culturais herdadas de sua família e seu território de origem.
Em Olímpia, consolidou sua família ao lado de Dona Edna Ferreira, com quem foi casado por mais de 60 anos. Juntos tiveram cinco filhos, quatro homens e uma mulher, e fizeram do ambiente familiar um espaço de transmissão de valores, da fé e dos saberes tradicionais que marcariam gerações.
Ao longo de sua vida, dedicou-se à preservação e à transmissão desses conhecimentos, tornando-se fundador da Congada Chapéu de Fitas e da Companhia de Reis Estrela da Paz. Sua trajetória demonstra como a memória, a ancestralidade e a fé, cultivadas no ambiente familiar, puderam florescer em um novo território, transformando-se em um legado cultural que ultrapassou os limites da comunidade e se consolidou como uma importante referência do patrimônio cultural imaterial brasileiro.
2. A origem familiar
O fundador da Cia de Reis Estrela da Paz e da Congada Chapéu de Fitas foi Capitão Ferreira. Nasceu em Lagoa da Prata, Minas Gerais, em 1933 (faleceu em 2024 aos 90 anos). Sua família e seu território de origem, traz longa tradição. Em Minas Gerais existiam:
- Congada
- Moçambique
- Reinado
- Festa do Rosário
- Cias de Reis
- Jongos
- Catupés etc etc etc
Tudo fazia parte da vida cotidiana da família. O próprio José Ferreira aprendeu desde criança:
- cantar;
- tocar caixa;
- confeccionar instrumentos;
- organizar os cortejos;
- conhecer os cantos tradicionais;
- respeitar a hierarquia dos capitães.
Ou seja, ele não "aprendeu" a Cia de Reis e a Congada em Olímpia. Ele trouxe esse conhecimento consigo.
3. A migração para Olímpia
Como milhares de mineiros nas décadas de 1950 e 1960, José Ferreira migrou para o interior paulista em busca de trabalho na agricultura, estabelecendo-se em Olímpia, onde dedicou grande parte de sua vida à lavoura. Embora trouxesse consigo a rica tradição cultural herdada de seu território de origem e de sua família congadeira, não reorganizou imediatamente um terno de Congada na cidade. Sua primeira iniciativa foi a formação da Companhia de Reis Estrela da Paz, manifestação nascida de uma promessa e profundamente ligada à sua devoção religiosa, ainda quando residia em Goias. Somente alguns anos depois, incentivado pelo Professor José Sant'Anna e pelo movimento folclórico olimpiense, ressignificaria também a tradição da Congada, fundando a Congada Chapéu de Fitas e consolidando, ao lado da Folia de Reis, um dos mais importantes legados da cultura popular de Olímpia.
4. Companhia de Reis Estrela da Paz
A primeira manifestação da cultura popular a marcar a trajetória da família Ferreira foi a Companhia de Reis Estrela da Paz, nascida da profunda devoção e do cumprimento de uma promessa feita por seu fundador, o Capitão José Ferreira. Mais do que a origem de um grupo de Folia de Reis, sua criação representa o início de um legado familiar pautado pela fé, pela religiosidade popular e pela transmissão de saberes e tradições entre gerações.
Segundo seu relato oral, a origem da Companhia está ligada a um episódio marcante vivido ainda em Goiás, antes de mudar para Olímpia. Sua esposa, Dona Edna, foi picada por uma cobra duas vezes no intervalo de poucos dias. Durante o trajeto para socorrê-la, José Ferreira fez uma promessa: caso ela recuperasse a saúde, dedicaria parte de sua vida à Folia de Reis. Ao perceber que Dona Edna voltava a enxergar durante o caminho, considerou o fato uma graça alcançada e decidiu cumprir a promessa.
Durante nove anos cumpriu a promessa, encerrado esse período, compreendeu que sua missão deveria continuar e organizou a Companhia de Reis Estrela da Paz, iniciando uma jornada completa de peregrinação que se estendia da meia-noite de 24 de dezembro até o dia 6 de janeiro, Dia de Santos Reis. Desde cedo, seus filhos passaram a acompanhá-lo, garantindo a continuidade da tradição familiar.
5. O encontro com José Sant'Anna
O grande marco ocorre em 1974. Professor José Sant'Anna descobre que José Ferreira era descendente de congadeiros. Então faz um convite. Basicamente pergunta:
"Por que vocês não recriam aqui a Congada que existia em Minas?"
Esse convite muda completamente a história do folclore olimpiense.
José Ferreira aceita.
Reúne familiares.
Reúne moradores.
Forma o grupo.
Nasce então o: Terno de Congada Chapéu de Fitas.
Os próprios relatos do Capitão José Ferreira confirmam que esse convite foi decisivo para que a tradição familiar fosse retomada em Olímpia.
6. O nascimento da Congada
O grupo foi oficialmente fundado em 1974 e realizou sua primeira apresentação no 9º Festival do Folclore de Olímpia (FEFOL). Sua criação representa um caso singular na história das manifestações da cultura popular brasileira. Enquanto, em geral, os festivais reúnem grupos já consolidados, no caso da Congada Chapéu de Fitas ocorreu o inverso: foi o próprio Festival que estimulou a ressignificação da tradição familiar trazida de Minas Gerais por José Ferreira. Ao reconhecer e valorizar esse patrimônio cultural, o FEFOL tornou-se o espaço que possibilitou o renascimento da manifestação em Olímpia, contribuindo para sua continuidade e transmissão às gerações seguintes.
Hoje, a tradição continua tendo como principal responsável João Ferreira, filho do Capitão José Ferreira, casado com Fatinha Batista Felipe. Natural de Carmo do Cajuru (MG), eles se conheceram em Lagoa da Prata e ela pertence a uma tradicional família de congadeiros, também vinculada à Irmandade de São Benedito. A Congada segue reunindo moradores do bairro Santa Efigênia, familiares e colaboradores, evidenciando a força dos laços comunitários que sustentam a manifestação. Merece destaque a participação do neto Jonatas, sanfoneiro, cuja atuação simboliza a continuidade entre as gerações, motivo de grande orgulho para o próprio Capitão José Ferreira, conforme registrado em seus relatos orais.
7. A matriz africana
Embora exista participação na Igreja Católica, a Congada possui raízes profundas nas culturas africanas. No caso da família Ferreira isso aparece claramente.
Segundo os relatos orais:
- Seu José era homem de terreiro;
- Dona Edna era benzedeira;
- A família possuía forte ligação com Dona Jesuína, precursora e matriarca da Tenda de Umbanda Caboclo Caramã e Pai Cesário (posteriormente assumido por sua filha Mãe Gê).
Esses elementos mostram que a espiritualidade da família articulava diferentes expressões da religiosidade afro-brasileira e do catolicismo popular, característica comum às festas do Rosário em diversas regiões do Brasil.
8. Dona Edna
Um aspecto pouco explorado pela bibliografia, mas muito presente na memória familiar, é a importância de Dona Edna. Ela foi muito mais do que esposa do Capitão.
Segundo seus familiares:
- confeccionava roupas;
- cuidava dos chapéus;
- tocava violão;
- ajudava na cozinha;
- recebia os congadeiros;
- preparava alimentos;
- organizava a festa.
Era uma verdadeira guardiã da tradição.
9. José Ferreira como mestre de ofício
Além de capitão, José Ferreira era também um mestre artesão. Fabricava:
- caixas;
- caixinhas;
- instrumentos da Congada;
- instrumentos da Folia de Reis.
Transmitia esses conhecimentos aos filhos. Essa dimensão do "saber-fazer" é um dos aspectos reconhecidos pelo conceito de patrimônio cultural imaterial.
10. Os Encontros de Congado e de Bandeiras de Santos Reis
Em Olímpia, a família Ferreira foi responsável pela organização de ‘Encontros de Congado’ durante 17 anos, celebração dedicada a São Benedito, Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia. A festividade reunia manifestações religiosas, culturais e comunitárias, com uma programação composta por missa, levantamento dos mastros, café dos congadeiros, visitas às residências, coroação da corte, cortejos e o encerramento do Reinado, reafirmando a devoção aos santos e fortalecendo os vínculos entre a comunidade.
Paralelamente, durante 10 anos, a família Ferreira promoveu ‘Encontros de Bandeiras de Santos Reis’, evento que reunia companhias e foliões de Olímpia, município que atualmente possui 13 grupos de Folia de Reis, e de diversas localidades da região, em torno da devoção aos Santos Reis. O encontro constituiu um importante espaço de salvaguarda da tradição, contribuindo para a continuidade da Folia de Reis por meio da transmissão de saberes, da valorização das práticas rituais, da troca de repertórios musicais e do fortalecimento dos vínculos comunitários, familiares e intermunicipais.
11. Reconhecimento acadêmico
A trajetória acadêmica de Tatiane Ferreira demonstra como os saberes tradicionais podem atravessar gerações e alcançar a universidade sem perder suas raízes comunitárias. Neta do Capitão José Ferreira e de Dona Edna Ferreira, Tatiane cresceu no ambiente da Congada Chapéu de Fitas, convivendo desde a infância com os rituais, os cantos, a religiosidade e os ensinamentos transmitidos por sua família.
Segundo relato oral de Tatiana, o Professor José Sant'Anna costumava dizer à ela: "Vai estudar, vai estudar." Esse incentivo, aliado aos valores cultivados no ambiente familiar e à riqueza da tradição de matriz africana vivenciada em casa, contribuiu para despertar sua vocação acadêmica.
Tatiane formou-se em Pedagogia, concluiu o mestrado em Educação pesquisando os processos educativos presentes na Congada Chapéu de Fitas e, posteriormente, obteve o doutorado em Ciências Sociais, aprofundando seus estudos sobre as permanências africanas no Congado brasileiro. Em suas pesquisas, reconhece a própria família como guardiã desses saberes e transforma em conhecimento científico aquilo que aprendeu no convívio com seus avós.
Sua trajetória evidencia que o trabalho de valorização da cultura popular desenvolvido pelo Professor José Sant'Anna ultrapassou a preservação das manifestações folclóricas. Ao incentivar seus detentores e reconhecer seus conhecimentos como patrimônio, contribuiu para que novas gerações se tornassem não apenas continuadoras dessas tradições, mas também pesquisadoras capazes de registrá-las, interpretá-las e fortalecer sua salvaguarda.
12. O falecimento do Capitão José Ferreira
José Ferreira faleceu em 26 de fevereiro de 2024, aos 90 anos. Sua morte repercutiu amplamente em Olímpia, sendo lembrado como um dos grandes responsáveis pela consolidação do Festival do Folclore e pela preservação da Congada na cidade.
13. Considerações para uma análise patrimonial
Do ponto de vista da Museologia e do Patrimônio Cultural, a Congada Chapéu de Fitas e a Companhia de Reis Estrela da Paz constituem exemplos expressivos de salvaguarda bem-sucedida do patrimônio cultural imaterial. Ambas preservam e transmitem um amplo conjunto de referências culturais que abrangem diferentes categorias de bens imateriais, entre elas os saberes, representados pelos cantos, toques, rezas, confecção de instrumentos musicais, elaboração das vestimentas, preparação dos alimentos e organização das festividades; as celebrações, como os Encontros de Congado, o Reinado, os giros da Folia de Reis, as Chegadas e Encontros de Bandeiras de Folias de Santos Reis, missas, cortejos e demais rituais religiosos; as formas de expressão, manifestadas na música, na dança, na oralidade, nas performances rituais e na devoção popular; e os lugares de memória, representados pelo bairro Santa Efigênia, pela Igreja de São Benedito no bairro que leva o mesmo nome, pela residência da família Ferreira, onde muitos desses saberes foram transmitidos entre gerações, e pelo próprio Festival do Folclore de Olímpia, espaço de reconhecimento, valorização e difusão dessas tradições.
A trajetória da família Ferreira demonstra que a salvaguarda do patrimônio cultural imaterial não se limita à preservação de objetos ou documentos, mas depende, sobretudo, do reconhecimento e da valorização das pessoas detentoras dos saberes tradicionais e da criação de condições para sua continuidade. Nesse contexto, o encontro entre o Capitão José Ferreira e o Professor José Sant'Anna, em 1974, tornou-se um marco na história da cultura popular olimpiense. Ao incentivar a ressignificação da Congada Chapéu de Fitas e reconhecer o valor das tradições trazidas por famílias migrantes, Sant'Anna contribuiu para fortalecer um processo de transmissão cultural que já se expressava na Companhia de Reis Estrela da Paz e que encontrou no Festival do Folclore de Olímpia um espaço permanente de visibilidade, continuidade e renovação. Mais do que um evento cultural, o Festival consolidou-se como uma importante ação de salvaguarda, fortalecendo identidades, estimulando o orgulho pelas tradições de origem e garantindo que esses conhecimentos continuassem vivos e transmitidos às gerações futuras.
Texto: Dra. Rosiane da Silva Nunes, Museóloga COREM 187 - III, Matrícula - 5278
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